Por Carla Dias
Em Inventários são descobertas a nostalgia descarta versões provedoras de distâncias. E, apesar da geográfica e da temporal, o passado toca o presente com a honestidade que se cansou das versões, pedindo por crueza — o que é tão deleitável quanto aflitivo.
A narradora volta ao passado por meio das lembranças da irmã, que mora em outro país, registradas em áudio, e de antigas fotografias, observadas por ela com o olhar guiado pelo tempo: o que passou e o que se congelou em suas memórias.
Acompanhando os relatos da irmã, a narradora reconstrói sua percepção do passado, reencontra a profundidade do luto e compreende o que a sua memória não registrou acuradamente à época.
A autora encontrou um caminho tocante para contar a história de uma família atrelada aos eventos mundiais, como as guerras, a imigração, a necessidade de se adaptar somente ao necessário para sobreviver. Sergia Alves é a maestrina dessa orquestra de acontecimentos, conduzindo os leitores pelo som das aflições e das exultações lavradas pela memória. Lembrar-se, despido das versões criadas para autoproteção ou providenciamento de indiferença, é desfiar o tempo. Inventariar memórias, ao menos aqui, é reencontrar-se.
Inventários são descobertas é uma obra de arte que merece este título.