Heleno Godoy (Goiatuba-GO), é mestre pela University of Tulsa (Oklahoma, USA), doutor pela USP-SP. Foi professor adjunto da PUC-GO, professor titular da Faculdade de Letras da UFG, onde se aposentou em 2015. Publicou Os veículos, fábula fingida, A casa, Trímeros, A ordem da inscrição, Lugar comum e outros poemas, Sob a pele, Inventário - Poesia reunida, inéditos e dispersos (1963-2015) e Nossos lugares e o que neles somos (poesia); Leituras de ficção e outras leituras e Leituras de poesia e outras leituras (ensaio); O amante de Londres e A feia da tarde e outros contos (conto); Relações (narrativas) e As lesmas (romance).
Heleno Godoy reúne dez anos de criação poética em 168 verbetes que ultrapassam a simples definição de palavras. Cada termo se transforma em território de reflexão, revelando camadas de sentido entre o real e o simbólico. O autor constrói uma obra que alia rigor estético e musicalidade, dialogando com mitologias, filosofias e ancestralidades. Entre tradição e vanguarda, Godoy reafirma a potência transformadora da linguagem e oferece ao leitor um compêndio singular que reinventa a semântica, abrindo novos caminhos para a literatura contemporânea.
Nas epígrafes que inauguram e fecham o conjunto poético de dicionário (um livro de verbetes; 2013-2023), compreendendo dez anos de catalogação de termos e expressões, eis a chave com que Heleno Godoy abre-nos as portas da percepção do seu empenho estético nessa cartografia imersiva muito peculiar, abrindo picadas, num viés ontológico e conceitual, em meio ao intricado cipoal semiótico que é o mundo das palavras, para decodificar seus signos e mistérios. Sugere-nos, a priori, que entre o pensado e o dito, entre a fala e a escrita, do intuído ao registro verbal, há um desvendar de palimpsestos, um trânsito – muitas vezes onírico – entre tantas possibilidades abertas aos sentidos e alternativas à comunicação, numa simbiose entre o real e o figurado.
Esse dicionário idiossincrático e reverberador de subjetividades contempla uma exegese do olhar, nele funde-se a experiência criativa do escritor, tradutor e crítico multifacético com a do professor, resultando numa prospecção demiúrgica no insondável aluvião de universos sintáticos e canais de expressão artística. Esforço que culmina num compêndio que carrega em todo o seu corolário o sentido de diversidade, por privilegiar um pout-pouri de imagens, temas, variações e discursos que se integram para instaurar uma espécie de interpretação do mundo, das coisas, do ser, dos objetos e, por tabela, dos sentimentos, esse território que abarca, no seus mais profundos escaninhos, a memória da vida e as tatuagens do inconsciente individual e coletivo.
Na sua cosmovisão, a narração poética empreendida por Heleno Godoy busca o cerne das realidades intrínsecas, nos espectros e modulações de cada verbete, induzindo-nos a um mergulho hermenêutico e cumplicidade com suas mundividências, na esteira de um rigoroso – e ao mesmo tempo delicado – processo de exploração do imaginário, flertando com ancestralidades, totens e mitologias, o que, no íntimo, resulta de uma necessidade autoral que, antecedendo à sua preocupação estética, reveste-se de uma responsabilidade ética e um compromisso com um questionamento reflexivo-filosófico do universo que o/nos circunda.
Entre a “alavanca” e o “zurro”, a escolha do autor recaiu em cento e sessenta e oito elementos, a partir dos quais a noção literária, e não a pulsão dicionarizada, é que, emblematicamente, define seus contornos, criando um pathos ontológico que resulta de sua aguda intimidade com o fenômeno poético. É de se destacar que, para além desse projeto de organização lexical, que abstém-se de qualquer tentação hermética ou academicista, de proclamações ideológicas e que transcende o mero exercício de elaboração de significados, definições, sinonímias ou traduções, Heleno Godoy oferece-nos um foco no rigor e esmero da linguagem, esse território que sugere o que é boa ou má literatura. Não há escrita que resista sem lastro nessa premissa e nesse caudaloso trabalho de pesquisa idiomática, o autor harmoniza-se com certas premissas de Roland Barthes, para quem “a linguagem é como uma pele: com ela eu contacto os outros.” “Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz”.
A obra que Godoy construiu ao longo de décadas, e nesse dicionário, essa postura se fortalece, não transige com o imediatismo de um panorama editorial vigente condicionado aos modismos e aos fetiches do deus mercado, nem se (in)surge como mero jogo (anódino) e trivializar palavras “pour épater le bourgeois”, como gritavam os poetas decadentes do fim do séc. XIX. Na contracorrente, sua dicção encarna a clara necessidade de explicitar as nuances de um observador do mundo e de seu tempo, nasce do cruzamento de múltiplas interrogações, enumerando termo a termo, partilhando seus mitos, seus enigmas, as perplexidades de uma consciência criadora que tem no poema, ipso facto, o lugar transformador da realidade, privilegiando, acima de tudo, a força provocadora da palavra num tempo caótico e de depauperação no campo literário, dos recursos e dos repertórios literários, quando um autor hoje vale mais pelo contexto do que pelo texto, pelas bandeiras e militâncias que consagra e não pela dimensão ou potência da linguagem que defende.
A experiência do autor nessa obra atesta um percurso intelectual e criativo que nunca abandonou o seu espírito coerente e sua dimensão inquietadora e metafísica, que persegue uma voz poética que se aprofunda na compreensão do universo contemporâneo e se arregimenta a partir de balizas seguras, em diálogo com outro, numa interlocução com o que aí está, seja no contexto do tangível ou na esfera do simbólico. Nesse sentido opera-se em seu arcabouço poético um vetor totalizante, cotejando o entendimento de Paul Celan: “O poema quer ir ao encontro do Outro, precisa desse Outro, de um interlocutor. […] Cada coisa, cada indivíduo é, para o poema que se dirige para o Outro, figura desse Outro.”
Esculpida com ênfase num processo de burilamento que homenageia ritmo, harmonia e cristalinidade, conferindo sutileza e musicalidade própria aos versos, eis uma poesia-rio que, a exemplo de Heidegger, também para Heleno Godoy, como projeto de escrita pulsante, é motivo para existir, assim como a linguagem se integra como a morada do ser, pois nela navegam muitos referenciais, do clássico ao contemporâneo, do lírico ao social, do erudito ao popular, do sagrado ao profano. Uma obra que não conhecendo fronteiras, em todos os campos ela surge como fonte de interrogação e conhecimento, carpintaria que abriga uma mirada cirúrgica e rastreadora, aguçando a relação da palavra com os dilemas conflitos e dicotomias da atualidade e da própria sobrevivência da arte, a teor do que consignou Adorno: “Só entende o que diz o poema aquele que percebe na solidão do mesmo a voz da humanidade.”
Como bem aferiu Nuno Júdice, “escrever poesia, no mundo atual, é uma forma de conservar o que, em cada dia, vamos perdendo: o ser no tempo, a identidade do eu na dissolução do sujeito devorado pelo movimento do mundo. […] Escrever hoje: eis o que, cada vez mais, não tem outra justificação a não ser a própria escrita.” A poesia enfeixada nessa obra vai ao encontro dessa perspectiva, resume o espírito de um escritor antenado não com a salvação do mundo pela poesia, mas com as emergências e demandas do fazer literário, na expectativa de uma recuperação do sentido ou dos propósitos de uma linguagem que expresse esse mondo cane e resista como escritura.
A geografia alfabética e polissêmica desses poemas espelha o prisma alargado das concepções estéticas e da potencionalidade de comunicação de um autor original, rigoroso e versátil que, entre a tradição e a vanguarda, jamais se perdeu nos labirintos da linguagem. Eis um território em que seu fio de Ariadne aponta a saída para novos caminhos de sua refinada escritura, cuja semântica se inova, se renova e se reinventa em meio às contradições e obscuridades do nosso tempo desafiador e distópico.
A consciência de que poesia se faz com palavras, bastante difundida por meio da anedota envolvendo o pintor Degas e o simbolista Mallarmé, assinala a modernidade, convertendo-se num topos moderno, do qual poetas contemporâneos ainda tiram rendimentos produtivos.
Carlos Drummond de Andrade o atualiza, entre outros momentos, em “Procura da poesia”. Nesse poema de A Rosa do Povo (1945), livro explicitamente empenhado, com poemas sobre a guerra, que questionam o lugar da poesia e do poeta na sociedade moderna e capitalista, a voz poética declara, em tom peremptório, no verso de abertura: “Não faças versos sobre acontecimentos.” Na sequência, continua negando a poesia feita com temas que os leitores de Drummond lhe sabem caros, como o corpo, os sentimentos, a cidade, os homens em sociedade, a memória da infância. Nas estrofes finais, o que parecia espírito de contradição se esclarece. Poesia não se faz, efetivamente, com esses temas, mas com palavras, e por isso a voz poética orienta, num outro tom: “Penetra surdamente no reino das palavras./ Lá estão os poemas que esperam ser escritos [...] Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.” A certeza, inabalável até no poeta aderido aos ideais comunistas, de que poesia é antes de tudo linguagem faz de A Rosa do Povo muito mais que um livro de poesia engajada, mas uma das grandes obras da literatura de língua portuguesa tout court.
Essa convicção também levou a excessos e radicalismos, a uma autorreferencialidade destituída de sentido histórico, ao poema que se esgota em si mesmo, enfim, a uma falta de sentido humano. Mas sem ela não há poesia, ou, pelo menos, poesia que sobreviva ao seu tempo. Por isso desconfio de alguns livros contemporâneos, centrados de modo ostensivo em questões de classe, raça, gênero e outras tais que, causas em si de importância inquestionável, mas que, enunciadas numa linguagem sem potência estética, não redimem o poema (nem a sociedade), malgrado seu sucesso em tempos politicamente corretos e de grande voga dos estudos culturais.
Nesse contexto, um livro como este dicionário, de Heleno Godoy, que centraliza e atualiza com originalidade o já velho topos, pode passar despercebido ou ser tomado como anacrônico. Entretanto ele guarda, a despeito da intenção do poeta, uma exemplaridade, ou mesmo representa uma provocação, pois põe em discussão uma questão que, apesar de óbvia, tem sido descumprida por poetas contemporâneos e desconsiderada por parte da crítica e, por isso, merece ser posta em discussão.
Heleno Godoy, neste dicionário, com poemas escritos e reescritos ao longo de 10 anos, o que é indicador da sua obsessão pela artesania do verso, leva ao pé da letra a crença moderna e vanguardista. Mais do que isso. Se o dicionário é o livro por excelência de todo poeta, o manancial fecundo a que recorre em seu processo de criação, independentemente do tema ou motivo, o poeta cria seu próprio dicionário, como a evidenciar o processo por excelência do fazer poético, que é inventar, agenciar e/ou ressuscitar sentidos, carregar a linguagem de significado ao grau máximo possível, conforme a máxima de Ezra Pound.
De certo modo, continua aqui a obsessão do criador que se deu a conhecer em Os Veículos (1968), com poemas tributários à vanguarda Práxis, e continuou em livros posteriores, como acontece centralmente em A Casa (1992). Mas agora a área de levantamento é o próprio léxico da língua portuguesa.
Não casualmente, os semanticistas Michel Bréal e Stephen Ullmann comparecem nas epígrafes. Este ainda está numa das hipógrafes, sendo a outra um dístico de Pedro Eiras, poeta, crítico e professor da Universidade do Porto. Esses paratextos na abertura e no fechamento do livro são já marca registrada de Heleno Godoy, propondo caminhos de leitura, que podem ou não ser seguidos pelo leitor.
Como posto na epígrafe de Ullmann, os sentidos novos atribuídos pelo poeta convivem com o velho/s sentido/s. A hipógrafe do mesmo autor, por sua vez, evidencia o processo de construção deste dicionário poético: partir do nome e buscar o sentido ou os sentidos ligados a ele, ou começar pelo sentido e buscar o nome ou os nomes conectados a ele.
Entretanto, malgrado os nomes dos linguistas convocados nos paratextos, quem compôs este dicionário não foi um lexicógrafo. Se, na precisa e irônica definição de Pedro Eiras sobre o contrato social, “O dicionário foi escrito/ pelos loucos que ganharam”, quem compôs este livro foi um sujeito insubordinado, um insurrecto contra os contratos sociais, sobretudo os linguísticos, alguém devotado aos dicionários, que esquadrinha ao máximo os sentidos possíveis entre o nome e a coisa nomeada, mas que não abre mão de propor, ele mesmo, novos acordos entre os substantivos e seus sentidos, partindo sempre da sua experiência, que é atravessada pelo seu tempo.
Como os sentidos são sempre sociais, históricos, este dicionário assume uma dimensão ética. Se o poema constitui antes de tudo um mundo organizado por meio da seleção e combinação de palavras, uma forma estética, essa forma é o meio que tem o poeta para lidar com o mundo sensível, o mundo dos homens em sociedade, para ressignificá-lo, limpá-lo de sentidos falsos, dar a ver a farsa como farsa e mostrar que a sociedade, como se encontra constituída, tal qual as palavras, pode ter outro/s sentido/s. Por isso no dicionário são postos em discussão, em vários poemas-verbetes, sentidos que integraram a pauta do contexto político brasileiro recente e ainda permanecem como uma ameaça
eminente.
O instrumento do poeta nesse processo é a ironia, cujos alvos são a política (“babado”), as instituições sociais (“escola”), os valores institucionalizados, a estrutura social (“favela”), o capitalismo (“farmácia”) e outros tais que.
Essa perquirição ética dos sentidos do nome é uma constante em Heleno Godoy. Inclusive, a sua identificação, no início da carreira, com a Práxis em detrimento de outras vanguardas de tendência exclusivamente formalista, parece ter sido motivada pelo fato de ser esta uma vanguarda simul-
taneamente semiológica e ideológica, aliando experimentação formal e conteúdo socialmente orientado.
O processo de exploração dos sentidos do nome faz deste dicionário um livro de poemas dirigidos prioritariamente à inteligência, poemas que constituem uma verdadeira “dança do intelecto entre as palavras”. Assim, entre as três categorias poéticas propostas por Pound, a privilegiada neste livro, como em toda a obra do autor, para carregar a linguagem de energia é a “logopeia”, não obstante os poemas não prescindam da exploração de elementos sonoros (“melopeia”) e visuais (“fanopeia”).
Tomemos o poema “babado” para acompanhar o exercício conceitual que o sustenta e deixa marcas textuais. Nessa composição, o poeta explora sentidos dicionarizados, como faz frequentemente em outras, e os potencializa, pois os explora de vários ângulos, dá-los a ver por meio de imagens pessoais, explora seu uso no contexto atual. Assim, o verbete em tela pode significar um sujeito molhado de baba, conforme recupera o poeta no dístico de abertura de forma dubitativa: “sujo, talvez, como porco que come/ de boca aberta e deita baba no chão”. Mas também pode significar um pregueado em tecido, como posto na segunda estrofe. Mas ainda pode ser uma mentira, uma fake news, significado flagrado no poema em sua situação de uso no contexto político nacional. Ao fim, o poeta relaciona figurativamente este significado com o proposto inicialmente, o qual tem o teor dubitativo substituído pelo conclusivo: “sujo, pois sim, como homem que fala/ com a boca aberta e deita baba no chão”. Ou seja, o poeta não aceita passivamente os sentidos dicionarizados. Precisa examiná-los minuciosamente, duvidar deles, olhá-los de vários ângulos, para aceitá-los, torná-los seus. Disso resulta um poema que talvez esteja mais próximo do ensaio do que do dicionário. Por causa disso pode ser que também aconteça de, num livro intitulado dicionário, o poeta ironizar o próprio sentido de “definição” e construir um dicionário que, reverenciando os dicionários, é contra as definições, pois busca uma “irrepreensível lógica dos contrários”, uma “ciência dos acasos”.
Essa modalidade de poesia exige um leitor vigilante, que leia com a atenção desperta para alcançar a graça conquistada com esforço que é a revelação de um poema.
Por ser o poeta um insubordinado, seu dicionário não precisa inventariar todas as palavras da língua portuguesa, mas apenas as que escolheu, totalizando 168. Nesse montante, não entram verbetes iniciados com as letras K, W ou Y, talvez porque só a partir do último acordo ortográfico tenham sido efetivamente incorporadas à língua portuguesa. Mas o poeta, professor titular aposentado de Literatura Inglesa da Universidade Federal de Goiás, escreve seu dicionário indiferente, nesse aspecto, a esse acordo. Não é indiferente, todavia, às restrições criativas, às regras que ele mesmo criou para estruturar seu dicionário. Entre os nomes que compõem os 168 verbetes, elegeu sete para quase todas as letras, salvo no caso das letras A, F, M, P e R, que apresentam oito ou nove.
Entre os verbetes, todos substantivos, comparecem tanto os concretos quanto os abstratos, estes muitas vezes concretizados por meio de imagens. Assim a “delicadeza” toma a forma de “um murro em pontas de penas ou cristais”, mas também da “mão minúscula de uma criança que rasga / um papel de seda, lambuza seus dedos com / mel que escorre e lhe cola confetes no lábio”. Assim a “gratidão”, a “alma”, a “solidão”, a “beleza”, entre outros.
Delicadeza e gratidão é o que vejo também inscrito na dedicatória do livro: “para Munira Hamud Mutran, mestra e amiga”. Pesquisadora e professora da Universidade de São Paulo, Munira colocou a sua vida a servir a literatura e a cultura irlandesas, tendo sido orientadora de Godoy no Doutorado, concluído em 2004, na USP, com tese ainda inédita sobre Flann O’Brien. Se a “gratidão”, no esquadrinhamento que o poeta realiza do nome, pode ser “o que dura pouco, voo de libélula”, nesse caso, é “o que dura muito, alicerce em pedras/ e cimento: a parede que em cima se/ pode construir por extensão e planos/ superpostos e suspensos, como sangue/ que se obtém como prova.”
Se a língua portuguesa possui mais de 380 mil palavras, Heleno Godoy necessita de poucas. Por isso escolhe 168 para compor o seu dicionário, para perquirir seus sentidos, testá-los, apreendê-los em sua contradição e, por meio deles, dar a ver a sua visão de homem, que é sempre a de um homem em sociedade, e de poesia, que é, desde a primeira obra até este dicionário, um trabalho constante com a “impura linguagem dos homens”.
Heleno Godoy, com o projeto deste dicionário, aponta para várias direções. Para a noção comum, lexicográfica, de um dicionário: um inventário de palavras-verbetes de uma língua, com informações etimológicas, significados, definições, exemplos, em ordem alfabética (pois, aleatória), classe gramatical, sintaxe, antônimos, sinônimos etc. que o livro de Godoy cumpre com maestria: 168 verbetes aleatórios, desierarquizados, mesclando concreto e abstrato, grotesco e delicadeza, descrição e reflexão, objetos comuns e tecnológicos etc. enumerados dentro de verbetes, tal se estivessem desenvolvendo glosas de motes. De outro lado, contudo, porque um dicionário é também um discurso ativo, que seleciona e omite significantes, prioriza significados, reflete quem o edita etc., ou seja, aponta para a sociedade e para a história do seu tempo, o livro de Godoy também cumpre os valores sociais de civilidade, éticos e políticos corretos de seu tempo social e histórico, em poemas inclusive de circunstâncias, como “balada”, por exemplo.
Daí outro ponto importante: dicionário não é um dicionário, é Literatura e, portanto, nomeia o que não existe: é linguagem “figurada”; depois, é uma paródia (positiva ou conciliatória, no caso), i.e., aparenta ser um dicionário, mas não é – sendo assim, duplica o sentido do próprio dicionário, apontando-lhe um sentido outro: de que a pretensão de representação da coisa em si é absurda - o dicionário é um mero significante, e transgride a própria norma e a função utilitária do dicionário, transformando-o numa heterotopia; ainda, provoca a reflexão sobre a função significante da própria literatura, transformando-a, ela, sim, em pivô de sentidos.
Porque um dicionário é o exemplo máximo da função metalinguística da linguagem, da linguagem sobre si mesma. Em certo sentido, sua pretensão final é ser o livro total de uma língua, espécie de “Aleph” borgiano de todos os sentidos.
Por constituir uma linguagem aos fragmentos-verbetes, monta um discurso infinito porque sempre expansível, e finito porque sempre datado. E, no caso deste dicionário, por ser literatura, isto é, a que se duplica já por natureza, também se fragmenta em verbetes/poemas ao infinito, multiplicando sentidos e refletindo sobre a própria literatura que, ao tornar-se mero significante, passa a receber os significados que lhe forem atribuídos conforme os tempos históricos, as sociedades e os leitores, tornando-se finita e infinita ao mesmo tempo que já é duplicação/metáfora da própria linguagem: uma metáfora que se volta sobre si mesma ou, no caso, uma paródia que se volta sobre si mesma.