Hugo Almeida é autor dos romances Mil corações solitários (Prêmio Nestlé-88) e Vale das ameixas. A vizinha das sete cordas é o seu quinto livro de contos. Organizou Osman Lins: o sopro na argila, ensaios, e as coletâneas Nove, novena: variações e Feliz aniversário, Clarice, selecionada pelo PNLD/MEC-2021. Mineiro, vive em São Paulo desde 1984. 

 

A VIZINHA DAS SETE CORDAS
 

Neste livro, Hugo Almeida explora os limites entre o dentro e o fora, lugar e circunstância, em narrativas que se desdobram como enigmas. Nos quinze contos escritos ao longo de dez anos, o autor constrói uma arquitetura narrativa marcada pela concisão e pela força imagética. Cada conto se abre como palimpsesto, em camadas de sentidos e referências. O autor reafirma sua sofisticação estética, presente em obras anteriores como Certos casais, Vale das Ameixas e Mil corações solitários. O resultado é uma narrativa enxuta e poética, que convida o leitor a desvendar silêncios, gestos e perplexidades.

 

Por Lara Vaz-Tostes

 

A vizinha das sete cordas é um livro em que o leitor entra achando que vai apenas acompanhar histórias e termina com a sensação de ter atravessado vidas. Há algo de raro na escrita de Hugo Almeida: ele observa sem crueldade, ironiza sem desumanizar e toca o trágico sem teatralidade. Sua prosa é lúcida sem ostentação — como quem sabe que a literatura não precisa gritar para ferir (ou salvar).


O livro se organiza em três movimentos — Dentro de casa, Fora de casa e Além — que são mais do que divisões formais: são modos de estar no mundo. Dentro de casa, o cotidiano perde o verniz. A casa surge como cenário moral, espaço de pequenas rachaduras, delicadezas frágeis e colapsos silenciosos. Contos como “Nas nuvens”, “Canoa do tempo” e “Assim de touca e máscara?” mostram que o que parece leve ou cômico, muitas vezes, é apenas a forma que a vida encontra para suportar a própria gravidade.


Fora de casa, o mundo se torna mais áspero. Há encontros, choques, atravessamentos. Textos como “Ponto cego”, “Dona Justina”, “Duas estrelas” e “Encontro na Capela Dourada” revelam um olhar atento ao humano em seus instantes mais contraditórios: o gesto bonito onde ninguém esperava, a brutalidade disfarçada de normalidade, o afeto que insiste mesmo quando já chega tarde.


E então vem o Além, que não é fuga — é tributo. A literatura aparece como fidelidade ao que nos formou, como dívida amorosa. O livro sugere, com sobriedade, que há coisas que o tempo não apaga — apenas muda de lugar dentro da gente.


O que une os contos é uma eletricidade sutil: o texto parece sempre prestes a acontecer “algo” — e essa iminência é linguagem. Hugo não força a mão, não moraliza, não se exibe. Confia no detalhe, no ritmo, no corte certo. 


Com humor fino, repertório e uma escrita elegante e impura (no melhor sentido), A vizinha das sete cordas não entrega lições — entrega presença. Ao final, o leitor não fica com uma moral, nem com uma resposta: fica um incômodo singular e bom — o de reconhecer, em silêncio, alguma coisa de si.

 

Por Whisner Fraga

 

Estes belíssimos contos de A vizinha das sete cordas iluminam o que há de mais íntimo e doloroso no ser humano: amor, culpa, perda, redenção — as personagens caminham por territórios instáveis, onde o mínimo gesto pode salvar ou condenar. com o lirismo dilacerante do autor e o olhar alerta dos narradores, as histórias de hugo almeida reforçam que toda vida é travessia e, nas sombras das veredas, pulsa um lampejo de espanto, fé e humanidade.
 

Por quem as cordas vibram
Por Eltânia André

 


O lugar define o homem? O lugar e as circunstâncias (numa perspectiva de Ortega y Gasset) destinam, confirmam ou marcam o território do conflito, da resistência, do horizonte aberto (ou não) aos sonhos? N’Os Lusíadas, Camões canta e decanta uma epopeia sobre o sair de casa, e em sua Odisseia, Homero empreende o voltar para casa. Habitar o lugar desejado extrapola os confins dos mares e as amarras territoriais; ao revés do tempo, a sorte e os acontecimentos são senhores do destino, mas não do afeto. 


Nesse jogo — ou antítese — dentro de/fora de, o autor de A vizinha das sete cordas nos conduz por caminhos que se (des)dobram e não se excluem ou apartam completamente. Numa torção similar à Fita de Möbius — objeto contraintuitivo que surpreende e atrai pelo desafio, em que o interior e o exterior apontam para uma instância não delimitada, na escrita de Hugo Almeida o dentro e o fora emergem como enigmas. Coloca diante do leitor um campo gravitacional de especulações, no qual não há respostas nem saídas imediatas, mas um permanente questionamento e um contínuo desvendar, diante do erro, do crime, do indulto e do insólito, que se afunilam numa peleja, num espaço coreográfico de gestos mínimos, de expressões contidas, de silêncios e evasões que falam mais que o enunciado. Aqui também importam, em chave elíptica, o não-dito e a estrutura formal que se impõe pela concisão e economia de meios, tanto estilísticos quanto semânticos. 


No intenso e denso percurso pelas situações e contingências que subjazem na consciência do ser, impõe-se escavar, esmiuçar os enredos e sentir as perplexidades e motivações de um autor que dá vida a uma arquitetura narrativa permeada de sutilezas e planos que se abrigam sob/sobre palavras, títulos, citações etc.,  como numa sequência de palimpsestos. Nada está ou acontece por acaso nem por mero enxerto ou enfeite na configuração dos contos, pois a sofisticação concede primazia a recursos muito peculiares, em que o menos diz sempre mais. Essa particularidade em Hugo Almeida é dominante, uma rara qualidade que reside na força temática, emocional e imagética e se traduz nos cortes, nas frases breves e precisas, albergando (in)tens(ç)ões sub-reptícias. 


Na linha de suas obras anteriores (oportuno lembrar, entre as mais recentes, os contos de Certos casais, de 2021; e os romances Vale das Ameixas, de 2024, e a reedição, em 2025, do premiado Mil corações solitários, bem como a publicação, no mesmo ano, do ensaio A voz dos sinos: o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, estes três pela Editora Sinete), em A vizinha das sete cordas, com o mesmo rigor estético que perpassa o amplo espectro de sua produção, o autor realiza, num claro viés ontológico, a sondagem de vidas rotineiras envoltas num cotidiano de névoas, impulsos e contradições, retratando situações e sentimentos, confidências e segredos, medos e apreensões, sonhos e pesadelos. 


Nos quinze contos que enfeixam A vizinha das sete cordas, escritos ao longo dos últimos dez anos, flui um caudal narrativo em que afluentes e influências trazem densos sedimentos à cultura e à dicção literárias desse incontornável escritor. Destaco, ainda, a conexão com obras e autores, tanto nos diálogos intertextuais e nas epígrafes que representam um nexo temático, quanto nas dedicatórias, que se convertem em homenagem e reconhecimento afetivo àqueles que cruzaram sua trajetória literária, acadêmica e existencial como inesgotáveis referências.


“Nas nuvens”, primeiro dos cinco contos da série Dentro de casa, abre a porta para espreitarmos as tramas e os dramas, assim como o vão das palavras, as sensações, o insinuado e o interdito, emulando a interrogação: viver nos arranha-céus, próximo às nuvens ou para além delas repousar na maquete idealizada, seria existir numa dimensão liliputiana? Já em “O casal do farol”, Sóstrato guarda segredos no iCloud, enquanto a mocinha, no vaivém da ambiguidade, “feito a maré e o tempo, oscila. Não-sim”. Num movimento pendular perto-longe, eles vislumbram a cidade pelo vértice do farol numa busca do invisível ou do imprevisível. 


“Por mares sempre navegados”, escrito no pós-pandemia que confinou o mundo nos limites da casa, carrega no título a inversão do desbravamento, da glória de ir além. Daí advindo um triângulo que não se fecha, eu diria que, para não morrer de tédio, uma mãe conta mil e uma histórias para sua filha, num esforço análogo ao de Sherazade, para enganar o tédio. E assim como Emma Bovary estranha as orelhas de seu marido Charles, “Ah, meu Deus! Por que suas orelhas são assim!?”, certo dia, Marília se pergunta, ao ver Arthur eriçar a juba inexistente, “O que é você? De onde veio?”, enquanto a criança apreende mais do que o suposto. Retornando ao tema da quarentena em “Canoa do tempo”, eis a metáfora da embarcação que segue o curso das águas e provoca outra pergunta — Para onde vai o mundo? — numa alusão ao incognoscível. A epígrafe de Manuel Bandeira, que amplia o belíssimo “Assim de touca e máscara?”, sugere que o concreto e o simples podem ser transformados em abstrato, sublime. E essa é a experiência esperada por Áurea. Com uma flor na touca, ela aceita pousar como modelo-vivo, e o seu corpo-ateliê responde de antemão com esperança aos domínios de Alonso — artista capaz de converter barro em bronze. 


“Ponto cego”, primeiro dos sete contos da seção Fora de Casa, deságua num final surpreendente. Na sequência, “Dona Justina” personifica ou mimetiza a justiça, alguém que incorpora a imanência do perdão e conhece bem os poderes da oferta de um café coado na hora. “Duas estrelas”, duas histórias, tantas peregrinações, dupla face do infortúnio. Em “Encontro na Capela Dourada”, um observador anônimo, entre quitutes e frutas, ouve e grava as “confissões” (em nome do pai) de Mariana, Nicolau e Horiundo com H, h de horror. Por falar em Horiundo, Justina, Sóstrato e outros, vale ressaltar que os nomes das personagens não são escolhidos aleatoriamente, há uma pertinência com fatos históricos, mitológicos ou literários. “A vizinha das sete cordas”, que dá título ao livro, conta sobre Mira, aquela que mira pelo olho-mágico. E de como sua vida se transformou ao conviver com a vizinha Elvira, “coração re-don-do”, divertida, musical, prestativa — aprendeu e ensinou que sons e cores ajudam a organizar a vida, até que... Sobre “Influxologia alemã”, somos levados na torrente paródica de “um delirante, trôpego e sibilino labirinto de falácias e sofismas” quando um “tal juiz simplesmente pediu... (‘é ina-crre-di-tá-vel!’) a anulação dos 7 a 1 da Alemanha no Brasil na Copa de 2014, no Mineirão, e a consequente derrogação (‘foi a palavrra que usou’) do título da seleção alemã”.  


Na última parte, Além — Tributo a três eternos, há uma viagem sensível e paralelística aos territórios criativos de Osman Lins, Clarice Lispector, Manuel Bandeira.   


No mesmo sentido, no pungente “E depois desse desterro?”, Hugo Almeida apresenta as catorze estações de Dario, feito um Jesus renascido e repaginado do antológico “Uma vela para Dario”, do mestre-vampiro de Curitiba, Dalton Trevisan, ao som de “Fita amarela”, de Noel Rosa.


Vários podem ser os olhares que culminarão em novas e significativas leituras deste conjunto nascido do manejo de um autor familiarizado com os signos e símbolos da linguagem. De seu cuidadoso processo de lima e lapidação, surge uma escrita elaborada, enxuta e poética, que transcende o óbvio e as aparências. Portanto, cabe aos leitores a tarefa instigante de abrir picadas na imensidão de A vizinha das sete cordas — corda extra que impõe complexidade, profundidade e beleza em todo o livro.

 

Outros livros de Hugo Almeida

clique no link para  mais informações sobre a obra

 

Vale das ameixas

romance (2024)

 

A voz dos sinos - o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins

crítica literária (2024)

 

Mil corações solitários

romance (2025)